A preconceituosa burguesia

Multidão, feliz, comprando

Gostaria de fazer algumas perguntas para todos acerca de um grupo determinado que chamarei aqui de “rico idiota”.  Tais ricos, que pregam o elitismo com prepotência, são milhões que se misturam entre as classes A e B do Brasil e expõe um preconceituoso entendimento das classes mais humildes, ou de pessoas vindas de regiões mais pobres, e à eles faço algumas perguntas para reflexão:

É tão ruim ver milhões de pobres subirem para classe média? É tão ruim ver outras dezenas de milhões de miseráveis subir para a classe C?

Mais, é tão ruim ver o zelador do seu prédio com uma televisão “das fininhas” igual à sua? É tão ruim saber que o faxineiro comprou uma scooter zero quilômetro?

“Ah, mas é financiada em 5, 10 anos”, dirão alguns! “Para a televisão ele fez carnê que terminará de ser pago na Copa do Mundo do Brasil. O carro, só em 2018, quando não custará nem metade do preço atual! “

Existem centenas de desculpas para cutucar a felicidade do pobre que nos últimos anos ganhou espaço, ganhou respeito e condições de não só ter o mesmo celular, mas também comprar a mesma televisão e até o mesmo carro de milhões de pessoas que estão na classe média.

Então, vem tais idiotas da burguesia justificar a facilidade de financiamento, dizer que o pobre vai “casar” com o carnê de prestações e só assim conseguiu entrar no mesmo mundo de consumo que tais pessoas já estavam. Pergunto: e daí? Se o crédito foi aceito, qual é o problema dele comprar? Está triste porque a piadinha deles consumirem um CCE acabou?

O problema é que muita gente se sente incomodada ao voar de Gol para o nordeste e ter que dividir o vôo com vários retirantes que visitarão suas famílias. Há ainda um enorme grupo que acha que avião é transporte de rico e pobre tem que se perpetuar dentro de ônibus pinga-pinga.

É problema seu que pobres quitarão o carro em 10 anos?

O mesmo pobre vai tirar o carro zero quilômetro não tem vergonha de dizer que o carro é financiado em 80 vezes. Mas o suposto rico estufa o peito, faz pose e esconde um carnê de três anos. E depois tais burgueses reclamam da quantidade de carros, do trânsito por causa que pobres estão comprando carro. Pessoas que não se olham primeiro no espelho são as primeiras a reclamar.

É muito constrangedor saber que o motoboy está na universidade? Que a menina que te serve café também está na universidade? “Ah, mas são as ‘universidades de esquina’ que rifam o ensino brasileiro“, tais ricos de pensamento responderão.

O fato é que existe um incômodo enorme, principalmente de tradicionais paulistas e sulistas, com o avanço e desenvolvimento de regiões mais pobres, como norte e nordeste.

Se alguma consumidora com sotaque nordestino entrar na Daslu ou Oscar Freire já pensarão, algumas paulistanas, que tal mulher vai deixar o salário inteiro para comprar uma simples carteira. “Que petulância! Onde já se viu um nordestino comprar na Oscar Freire?“, elas pensarão, desconhecendo o crescimento econômico do Nordeste.

Existe, implícita na sociedade brasileira, uma preocupante segregação racial e econômica, principalmente vindo dos eternos frequentadores da classe média, que não admitem novos integrantes que saíram da pobreza. E tais pessoas criticam programas sociais, rotulando alguns como “bolsa-vagabundo”.

Nordestinos, felizes, com suas novas motos

São pensamentos preconceituosos contra programas sociais às classes D e E, e contra as novas aquisições da classe C, como a primeira moto, primeiro carro, primeira viagem de avião, primeira faculdade e primeira casa que milhões de pobres estão adquirindo. Mexeram no queijo do rico (Para quem leu “quem mexeu no meu queijo?”), deixando transparecer em tempos de eleição toda sua insatisfação em ter que dividir o mesmo espaço.

E muita gente com esse pensamento hitleriano perde oportunidades de crescimento do próprio negócio por desconfiar do pobre e de sua condição financeira. O atual governo permitiu que os beneficiários de auxílios consumam, fazendo a economia regional de rincões crescer. Em outras palavras: o dinheiro gira.

Para mudar a vista, precisa mudar de pensamentos

Tais ultrapassados burgueses criticam até as eleições, dizendo que pobre não tem consciência do voto. Ora, o que eles querem, a volta do voto censitário?

A alta elite se dá o luxo de aumentar seus preços para selecionar seu público, deixando a classe média vulverável à invasão dos pobres em ascensão. Está na hora de jogar essa arrogância e prepotência fora, no lixo, e aceitar dividir lojas, bares, aviões, avenidas, hotéis, boates, praia com todos, só assim será possível desenvolver uma sociedade justa.

Para começar uma justiça social e acabar com a desigualdade tem que aceitar dividir o mesmo espaço, mas isso muita gente não está disposta a fazer, infelizmente.

Há, claro, muita gente que está nas classes A e B que não pactuam do mesmo pensamento discriminatório, e que estão dispostos a ajudar ou, na pior das hipóteses, não restringir o acesso e desenvolvimento das classes menos abastadas. Porém, há um grande e triste grupo de pessoas que receberam ótima educação, mas que têm atitudes preconceituosas, seja com uma simples e “inocente” piadinha, ou seja mesmo com tons mais incisivos contra programas de assistência social.

À estes elitistas, um conselho:  Não se preocupem tanto com a vida alheia e não se preocupem com o espaço que nunca foi só de vocês.

Don’t worry, be happy.

Marcio Vieira

Anúncios

10 Responses to A preconceituosa burguesia

  1. guycx disse:

    “É muito constrangedor saber que o motoboy está na universidade? Que a menina que te serve café também está na universidade? “Ah, mas são as ‘universidades de esquina’ que rifam o ensino brasileiro“, tais ricos de pensamento responderão.”

    pior que não, não são universidades de esquina não. eu, como estudante de uma das universidades mais caras desse país – e, felizmente, uma das melhores -, fico muito feliz de poder compartilhar a sala de aula com os menos favorecidos: mais do que pelo sentimento de igualitarismo e justiça social, mas pela bela chinelada na cara da “elite de peito estufado” que o ProUni representa.

    “Existe, implícita na sociedade brasileira, uma preocupante segregação racial e econômica, principalmente vindo dos eternos frequentadores da classe média, que não admitem novos integrantes que saíram da pobreza.”

    esquecem-se esses senhores elitistas que seus antepassados, imigrantes italianos, alemães e de outros locais também saíram da pobreza extrema causada pelas mudanças sociais que ocorriam na Europa no século XIX. caso contrário não teriam deixado suas terras natais.

    “Tais burgueses falidos criticam até as eleições, dizendo que pobre não tem consciência do voto. Ora, o que eles querem, a volta do voto censitário?”

    é o sonho de todo serrista heheheheh

  2. Julio Diaz disse:

    Cara adorei o post, e se me permitir divulgarei seu blog à outras pessoas e em outros blogs que comento. Parabens pela clareza das ideias e do texto.

  3. Hugo disse:

    Excelente artigo, descreveu tudo o que vejo sobre a classe média (à qual convivo) perfeitamente; São pessoas que dão importância apenas ao status, e claro, negam isso veementemente, mesmo que as atitudes e pensamentos sejam todas condizentes com isso; Sua implicância com o partido PT se deve basicamente por ser um partido popular, imagem ao qual eles não querem se associar por puro preconceito;

  4. Ótima análise. Parabéns.

  5. Sansquer disse:

    Para falar a verdade a pergunta que deveria ser feita é:

    É importante o pessoal das classes C e D ter esgoto, educação e saúde ou poder comprar em 5 anos uma TV fininha…. O problema é que o povo pensa no curto prazo e é egoista, quer a TV não o calçamento e o esgoto.

  6. Cleiton Pessoa disse:

    Esqueceu de citar os nomes dos responsáveis por essa evolução do pobre. Collor com a abertura dos importados, FHC com a reforma da economia e de vários setores podres da sociedade incluindo a privatização de empresas que davam só prejuízos e eram cabides de emprego e Lulinha paz e amor que seguiu a cartilha de seu antecessor colocando no comando do banco central Henrique meirelles e fez ao contrário de tudo aquilo que disse quando era oposiçao graças a DEUS!.
    O mérito de tudo isso cabem a 3 presidentes, inclusive o cassado Collor, e não como alguns acham, a 8 anos de governo do PT.

    • Marcio Vieira disse:

      Cleiton, o texto não é partidário. O FHC começou alguns programas sociais, e o Lula ampliou bem mais. No texto, eu critico a atitude de milhões de pessoas das classes alta e média que são contra a ascensão das classes mais humildes e aos programas de assistência social, chamando até de “bolsa-vagabundo”. Abraços

      • Cleiton Pessoa disse:

        Concordo com você Marcio, sou totalmente a favor de dar assistência social, sou urbanista e arquiteto ou vice-versa, sei o que precisa ser feito em grande parte para que as cidades funcionem adequadamente. O problema sempre foi a burocracia e a corrupção. Talvez os impostos demais e serviços de menos. Não sou contra o assistencialismo, sou contra a classe C mover a roda, porque ela paga por tudo e não usufrui de nada, ou seja, paga escola, carro, impostos, aluguel, carnês, plano de saúde etc etc.
        O problema das favelas por exemplo, é de facílima solução, que eu mesmo poderia te citar do ponto de vista urbano, mas dai vamos esbarrar em 3 coisas: justiça corrupta, direitos humanos e corrupção imobiliária.
        O grande problema de “dar” “esmolas” é que o que vem fácil, vai fácil. Não se pode dar uma casa, tem q cobrar por ela, mesmo que seja o mínimo, esse mínimo pode ser 20 reais, 10… não sei, mas que após 20 anos a casa se torna da pessoa. Não é novidade que muito dos assentados revendem o direito da casa que ganham em troca de algum carro velho ou demais porcarias.
        O problema nunca foram as pessoas, sempre foram os políticos. O brasileiro foi criado para acreditar que ter sucesso é ruim, tem q se esconder ou esnobar, ao passo que países europeus ou da américa do norte, o seu sucesso é o sinal do seu esforço e trabalho, aqui quando alguem fica rico, parece que está roubando, quando não muito está mesmo, porque são tantos os impecilhos para acumular riquezas.
        Aqui, infelizmente vivemos na política do “fulano” me deu isso ou aquilo. A maioria das pessoas vota pelo passado ou por indicação, não por análise de curriculo. É a mesma coisa que eu procurar um emprego para arquiteto rasgando meu diploma ou limpando todos trabalhos que fiz , vou arrumar emprego aonde? Todas pessoas tem méritos, e elas devem ser avaliadas pelos seus méritos e fracassos.

        Já estou fugindo do tema e me delongan nudo demais neste texto. Eu agradeço o espaço para o desabafo. É impossível acreditar nesse país conhecendo tantos casos de coisas erradas sem punição, eu pessoalmente sei de vários e sei que nunca irá ocorrer o que eu gostaria.

        Abraços

  7. […] o furação eleitoral escrevi dois textos que abordam a temática, “A preconceituosa burguesia” e “Braço a torcer“, onde procurei retratar perigosas e preconceituosas […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: