I-phode com a vida

Há tempos penso em escrever algo sobre os efeitos da tecnologia na vida. Até que ponto ela oferece mais benefícios que prejuízos? Até que ponto ela é saudável?

Desde que cheguei na Suíça, minha primeira percepção é de uma população feliz… mas isolada. Não entendo nada dos critérios de avaliação que usam para elaboração do ranking de melhores cidades para se viver, há anos, Zurique e Genebra frequentam listas das dez melhores cidades do mundo.

São felizes porque a Suíça permite, dá condições de ter uma vida boa, com salário mínimo digno, férias, estudos acessíveis, transporte eficaz, segurança e saúde. De fato, motivos não faltam para o país ter níveis altíssimos de qualidade, mas a questão é: os prejuízos do excesso de qualidade.

É bom ter condições de comprar de tudo, mas é muito pior comprar sem precisar usar, ou sem saber usar. E, em se tratando de produtos eletrônicos, os prejuízos do mau uso são devastadores na vida de uma pessoa.

Durante as últimas semanas, fiz uma estimativa: de cada dez pessoas que entram diariamente nos trens e ônibus de Genebra, 4 estão com fones no ouvido. O pior é entre jovens (aparência entre 16 e 30 anos): de cada dez que vejo, 7 ou 8 estão “isolados” à sua música.

À sua música, ao seu mundo, jovens de hoje perdem a chance de desfrutar daquilo que seus pais lutaram um dia: a liberdade!, em troca do individualismo infinito fornecido pela internet. A grande rede permitiu aos jovens do mundo todo encontrar suas respectivas “tribos”, estilos distintos de música, de roupas, de aparência e de referência.

E a indústria eletrônica acompanhou isso. Acredito que o primeiro pontapé disso tudo foi o saudoso Walkman, da Sony, para escutar seus k-7 em qualquer lugar.

 

O pioneiro

 

No final dos anos 80, ser portátil era o que faltava. Mas, depois de vinte anos de uma chuva de lançamentos, novos produtos, novas tecnologias e novas dependências, vivenciamos uma vida estranha e artificial.

Criam-se todos os anos novas necessidades desnecessárias: celulares ultra modernos “all in one” são as coqueluches da vida high-tech. A cada dia, a principal função de um celular, que é telefonar, perde eficácia diante dos novos apelos consumistas: TV digital, acesso à internet, e-mail, blog, facebook, msn, mp3, mp4, mp18, 20 gigas, 50 gigas, video-conferência, Ipod,  Imac, Iphone, Iphode!

Tudo isso é legal ter, mas cuidado com a dependência que traz. Em excesso, faz mal. Tudo tem seu momento de uso. Existem momentos sociáveis do dia, como transporte público onde há oportunidade de conhecer gente nova, dar bom dia, receber bom dia, conversar, etc., mas o consumo exagerado de produtos e o isolamento que isso traz causa, também, isolamento às outras pessoas “offline” da modernidade.

Mais alguns anos, é capaz de você conversar com a pessoa do seu lado via torpedo. Vai dar  desespero no dia que você esquecer seu celular em casa, vai achar que seu dia será uma tragédia. Calma, isso é só uma algema eletrônica: a vida é muito além de seus contatos do msn e dos amigos do orkut.

E esse isolamento não é só aqui na Europa. Em Hong Kong a coisa é bem pior, e toda população asiática é completamente fechada no mundo cibernético. Nova Iorque, quem não abrir a caixa de e-mails via blackberry em pleno  horário de almoço não será eleito o funcionário do mês.

E no Brasil não será diferente, pois só precisam duas coisas: o povo ter condições de comprar (o que já está acontecendo) e a diminuição do risco de roubo, que vai diminuir, não por eficácia da segurança pública, e sim pela avalanche de produtos: todo mundo estará plugado, o que dificultará o ladrão saber qual é um original e qual é chinês mequetrefe.

Toda essa tecnologia trouxe dependências e novas horas de trabalho, de atenção. Mas o dia mantém com 24 horas, então, recomendo buscar um equilíbrio entre a vida real e a vida eletrônica.

Do contrário, repetindo a bíblica história de Adão, Eva e o fruto proibido, Steve Jobs e cia. vão I-phoder com sua vida.

 

A vida artificial de um mundo que Iphode

 

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2 Responses to I-phode com a vida

  1. Renata disse:

    Marcito, parabéns pelo post! Muitas verdades! Mas fala sério… os jovens aqui precisam aprender… nada como uma boa cervejinha entre amigos, jogando papo fora, nao? 🙂

  2. Rafa disse:

    Fala Marcião… pois é cara, eu concordo com tudo isso e tb reparei aqui na Switzerland que as pessoas sõ bem mais desplugadas do mundo real que o recomendável.

    mas eu acredito que o fato de estarem plugadas em seus mundos particulares tb tem a ver com a cultura local… um suíço, alemão ou inglês são bem mais difíceis de serem “descolados” e fazer amizade fácil. E isso acontece ha gerações… muito diferente dos brazucas e latinos em geral.

    Deixa eles pra lá… não estão nem percebendo que pouco a pouco deixam de viver a vida verdadeira e que nós, os “latinos e africanos” estamos aproveitando muito mais a qualidade de vida de primeríssimo mundo do que eles. Quem está atrasado mesmo?

    Abraços!

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