Primeiros dias

As primeiras pegadas em solo europeu têm sido bastante satisfatórias. Lógico que está dentro de mim a necessidade de passar apuros, perrengues e outras dificuldades.

Tudo começou no check-in em Guarulhos pois me deixaram na última fileira ao lado da cozinha e dos banheiros. Ora, o resultado disso é óbvio: duríssima viagem, sem dormir, era barulho das aeromoças (pra ser simpático, afinal estavam mais para aerovelhas) e, principalmente, vozes e odores desagradáveis do banheiro. No avião havia um grupo de velhinhas do interior de SP que fariam uma excurção na Europa, e lá se vão horas de papo delas.

Era fila pra mijar, fila pra escovar dentes, fila para fazer um xixizinho antes de aterrizar, fila para tudo ao meu lado!!

Ao meu lado esquerdo, uma estudante de doutorado, Geovana, que vai para Santiago de Compostela para o segundo semestre. Gente fina, logo perguntei: “o que você pensou logo quando aterrizou na Espanha?”. O óbvio, ela disse um “fudeu” ao desembarcar no semestre anterior, mas disse que, com o passar do tempo, as coisas vão se ajeitando. Assim espero.

Em Madrid, troca rápida de vôo, com destino ao meu primeiro “ferrou” em francês. Minto, não é o primeiro, e sim segundo, aqui abro um parenteses:

(Em 2005, quando fui morar na Inglaterra, a Air France fez questão de perder minha mala, justo a mala que tinha toalha, escova e pasta de dente, xampu, etc etc. Não tinha hospedagem, não tinha endereço para mandarem a mala, início de férias europeias, enfim, foi uma zica muito grande até achar um hotel Formula 1 para eles mandarem a mala).

Depois do sufoco de Paris, todas as minhas malas estão com toalha e frescuretes de higiene,  além de roupa para pelo menos 3 dias. Então percebo que os deuses francófonos gostam de me atazanar: desta vez, nova mala perdida, desta vez, culpa da Iberia.

Perder a mala é igual a ser o último a baixar as cartas do jogo de burro (porco, sei lá o nome que vocês costumam jogar). Na esteira, todos vão pegando suas malas e indo embora, vão ficando poucos, cada vez menos pessoas, até que você fala pra você mesmo: fudeu, minha mala! O mico sobrou na minha mão.

Ai ai ai… daí você precisa respirar fundo e erguer a cabeça porque sempre terá alguém que buscará seu olhar para, em pensamento, ambos falarem: “estamos fodidos”.  Perder mala é assim mesmo, nunca você estará sozinho, apesar que, mesmo tendo a solidariedade de alguém, isso não ajuda em nada.

Então, já em Genebra, fui lá para o setor de malas perdidas. Descrevi a dita cuja, dei o endereço que estou, e fui embora. Nessas horas, é preciso também buscar algo para compensar: era a mala mais pesada, e pra carregar quase 30 quilos ia ser complicado. Só ficou a apreensão por causa da cachaça e dos livros que estavam dentro.

Saindo do aeroporto, encontro Henrique, um cara gente fina que vem me ajudando, trocando várias dúvidas sobre a cidade, já que ele também chegou faz pouco tempo. Pegamos o trem, depois o bonde elétrico, até chegar na casa da Dona Antonia.

O apartamento que estou moram: Antonia e Manolo (um casal da Galícia, Espanha), que viram meu anúncio no site da Unige e falaram: aqui já mora um brasileiro e gosto muito dos brasileiros. Então vamos para sua casa, oras. O outro flatmate, Eduardo, é de Salvador.

Todos são muito gente fina, pessoas extremamente agradáveis. Contei brevemente sobre a mala perdida, então me apresentou o famigerado quarto: Uau!! É um pedaço da sala, fizeram uma parede de gesso, mais fina que papelão. E o melhor: não tem janela!!  Que beleza, Marcião, mais um quarto maravilhoso para os primeiros dias.

Respirei fundo (pensei no “que merda”) e mentalizei (não vou chorar, e sim dar risada!!), afinal, já passei por situações muito mais complicadas quando fui para Hong Kong e Birmingham.

Manolo e Antonia são dois gordinhos simpaticíssimos que adoram… comer! É muita comida, não páram de comer, o almoço deles equivale à uma semana de refeição pra mim.  Logo no dia, muito gentis, falou para eu sentar à mesa e foram mandando bala no meu prato: “Coma Marcio!  Coma Marcio”.  Daí bebia um pouco d’água, e já enchiam meu copo: “beba Marcio, beba Marcio!”.  Eu saí rolando, e não tive nenhum revertério do “rabo de touro”, prato do dia.

Sim, já cheguei na Suíça comendo o rabo do touro. Mesmo evitando comidas carnívoras, uma coisa que não faço é recusar/rejeitar a comida do anfitrião. Eles não me conhecem e, ainda mais com Antonia e Manolo, seria muito chato, decepcionante para eles e, além do mais, estava faminto!

No outro dia, bem cedo, fui caminhar um pouco pela cidade. Comprei o bilhete mensal de transporte público (70 francos), e voltei pra casa para receber minha mala.

Quando chegou, a porcaria veio com roda quebrada. Eu reclamei em inglês com o entregador, que não falava nada e só entendi que era para ligar no serviço de reclamação. Cara de ser um marroquino, argelino, melhor não provocá-lo para uma mini-Jihad. Liguei, pois, para cia. aérea, e depois de inúmeras tentativas e músicas de espera, um indiano do telemarketing da Ibéria me disse que a política da empresa não se responsabiliza por danos nas rodas ou puxadores da mala.

Insisti, disse que entreguei a mala em perfeitas condições em Guarulhos, falei que além de perderem a mala, ela veio quebrada, mas o coitado do indiano só dizia “sorry”, não posso fazer nada para você: são políticas da empresa.

Mandei um e-mail com fotos da roda para o serviço do Aeroporto de Genebra, para Ibéria e para a agência de viagem.  Todos se esquivando em me ajudar.

Ibéria, só pra constar: vai se fuder!

Minha mala foi usada apenas em 2 outras viagens. Nunca aconteceu nada comigo, nem quando a Air France perdeu. Nunca pedi nada, mas para quem paga mil dólares de passagem, o mínimo que espera é encontrar suas coisas da mesma forma que deu à cia. aérea.  Ibéria, vai se fuder!

Não quero uma mala Luis Vitão, não quero ganhar dinheiro em cima de vocês. Só quero uma mala do mesmo valor e qualidade. Só isso.  Ibéria, você é decepcionante! Faço propaganda para não viajarem com essa cia. aérea. Vão de jegue, jumento, atravessam o oceano numa câmera de pneu (dúvida: é câmara ou câmera de pneu?!?) de caminhão, mas não vão com eles: a comida é horrível, aeromoças fofoqueiras e banheiros fedorentos. Ah, eles perdem sua mala, quebram, e dizem que, se quebrarem a rodinha, é política da empresa.

Mas tudo bem, nada que uma respiração calma e muita água não resolvam. Ah, nem ferrando, bebo a água e respiro depois!! Quero minha mala!! Estou encaminhando o mesmo e-mail todo dia. Se alguém em São Paulo ou qualquer outro lugar puder me ajudar a resolver tal problema, falem comigo. Até lá, Ibéria, vai tomar no c*! (fui mais educado, agora).

Ah, mas falemos da cidade!! Ela é linda, organizada, transporte público para todos os lados, ciclistas dentro da sua faixa de circulação, que inclui até semáforo!!, e os carros de bacana, bancos de bacana, relojoarias de bacana, etc etc… E penso: pqp, o que estou fazendo aqui!! Nascido no Largo Treze, luxuoso bairro paulistano, vim parar num dos principais paraísos fiscais do mundo.

O lago que banha a cidade é maravilhoso, uma vista excepcional, montanhas circulam a cidade formando uma enorme muralha. Calor, por enquanto, na faixa dos 20 graus. Mas logo a temperatura vai baixar e as montanhas, verdes, ganharão tons brancos.

Até lá, muitas pegadas virão.

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3 Responses to Primeiros dias

  1. Marina disse:

    Me matei de rir!
    Só vc mesmo!!!!
    Saudades já!

  2. davicury disse:

    Boa, Marcião…virei visitar seu blog!

    Mas lembre-se que é um blog, não é uma coluna do New York Times…então seja sucinto, po! rs

    abraço

  3. talita disse:

    ja tava cm sdds dos teus causos de viagens rsrsrs

    bjaoooo e sorteeeeeeeeeeeeee!

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