Contra o vento não vão mais caminhar

21/05/2012

Entre tchus, tchas, lê lês e lá lás,

Os poetas foram deixados para trás

Porque hoje são traseiros à mostrar

Para todo mundo, no mundo inteiro, apreciar

Mas não precisamos voltar muito para comparar

Bastam alguns anos, e questionar:

O que fizeram com a música popular?

Antes havia uma letra para pensar

Agora são sílabas aleatórias à cantar

Feitas de lê lê lês, tchererês e lá lá lás

De gente que não têm noção o mal que faz

Estão acabando com uma história que há de se orgulhar

Encaixando palavras, sem contexto, só para rimar

E quando não tem palavras, enfiam um outro tchá

Coitado do Jobim, da Elis, e tantos outros que estão à chorar

Mais coitado é o povo, ignorante, que estás à escutar

De pessoas que não tem nada de bom para influenciar

Palco e microfone, hoje, são só para rebolar

Enquanto antes, eram pensantes palavras para protestar

Oh, pátria de chuteiras, onde sua voz doce foi parar?

Por que tanta preguiça para compor e cantar?

Por que formar estrelas quem não sabem brilhar?

Oras, é mais fácil tchus e tchás para memorizar!

Vai vender mais, rapaz!

Deixem os verdadeiros poetas no bar, à lamentar!

Pra que letras grandiosas se o povo não sabe raciocinar?

É um Brasil comandado por pessoas que não querem educar

Gente ignorante, coitados, que não podem descobrir como votar

Que preferem ver as fotos nuas de atriz famosa para comentar

Do que discutir sobre a merda da educação que aqui está

Criam-se mais uma geração perdida com doses de tchus e tchás

É verdade também que antigamente tinha música ruim para se escutar

Mas havia espaço aberto para boa música tocar

Hoje, se quer ver gente boa, prepare o bolso para gastar

Elitizaram a verdadeira música popular

Enquanto a vulnerável maioria do povo, desamparada, está

Futuro sombrio nos aguarda, não há argumentos para discordar

Contra o vento e sem documentos, estes de hoje, não vão mais caminhar

Marcio Vieira


Novos tempos na Boca

14/05/2012

- Dimiui a velocidade, Vagner. É na próxima rua à direita, ande uns 50 metros e pare. – Disse Alberto.

- Tem certeza que é tranquilo? Lugar tenso, esse!

- Desliga o farol, cacete. E sem buzinar.

- Foi mal. Estou me cagando, porra.

- Relaxa, é rápido e a gente cai fora. O Nego Lau é aquele ali que já vem na nossa direção, junto com dois seguranças. Um eu reconheço, é o Negueba. O outro não sei quem é.  Não desliga o carro. Se der zica a gente sai rasgando.

Laurindo, 32, cresceu rapidamente nos últimos meses. Antes de se tornar o respeitado Nego Lau por toda favela, apenas era um intermediador de pequenos papelotes de droga para jovens da classe média. Visionário, trocou as drogas por sacolas plásticas logo no início das novas leis de circulação e distribuição de sacolas plásticas, montando com eficiência uma rede de infiltrados nas principais redes de supermercados do país, e parcerias no tráfico com outros estados, principalmente o Rio de Janeiro.

- E aí, Nego Lau, beleza? Eu sou o Alberto, que já vim comprar com você algumas vezes.

- Suave. Esse branquelo aí, quem é? – Perguntou Nego Lau.

- É o Vagnão. Tá na família. É ele que quer comprar hoje. – Respondeu Alberto.

- Nego Lau, tu tu tudo bem com você?

- Suave. Vai querer de qual, branquelo?

- Vo vo vo… que que querer… qual que vo vo você tem?

- Porra, é gago essa porra? Tira a piroca da boca, cabaço. – Atravessa, na conversa, o segundo segurança do Nego Lau, o Ratão.

- Foi mal. Ele tá nervoso, pessoal. – Respondeu Alberto, defendendo o amigo Vagner.

Vagnão, qual você quer: da brasileira, francesa ou americana? – Continuou.

- Não sei. É a primeira vez que compro. Qual você acha melhor? – Vagner falou baixinho para Alberto.

- Nego Lau, qual tá num esquema firmeza hoje?

- Parceiro, pro novato aí, melhor começar com uma nacional, tipo Extra. Sabe como é, a vizinhança num nota muito, o lixeiro nem percebe, zelador, porteiro, ninguém vê. É só ficar na miúda que não vai ter problema.

- E a do Pão?  Você tem? – Pergunta Alberto para o Nego Lau.

- Do Pão é publico A, coisa mais seleta, tá ligado. Tem uns playba que vem comprar da Pão, umas peruas que se acham ricas emergentes só por pilotar  Tucson, tá ligado, essas aí só querem se mostrar.  Mas depende de quanto você quer que nóis arruma.

- A francesa também é bacana, né? Descobri só nesses dias o que significa aquele símbolo.  Um “C”!! Acredita, Alberto? Achava que era um monstrinho de chapéu. – Comentou Vagner.

- Hoje não tenho Carrefa, mas se quiser descolo pra amanhã.

- Tão rápido?

- Tenho uns truta infiltrado, é esquema profissa. Ontem chegou pra mim do Wal Mart. Tá no preço.

- Quantas vo…você vende? Que…quero umas cem pr pra esse mês. – Disse Vagner, que não consegue esconder o nervosismo com a negociação com o traficante.

- Vagnão, fica sussa. Nego Lau é da paz. Só não atravessar no trabalho dele.

- Isso aí, Parsa. Sem fuder nóis, firmeza? – Responde o segurança Negueba ao que Alberto disse.

- Ow cabaço, cem sacos é muito pra você. Depois você não se segura prus Polícia e ferra todo meu movimento. Essa parada de tráfico da sustentabilidade é o futuro para os traficantes, e não vou rodar justo agora que tá na moda ecologia, garrafa verde, sacola verde, grama verde, plantinha verde, tá ligado. Pega umas trinta só e depois nóis troca ideia mês que vem. Trinta por dez real, demorô? – Sugeriu Nego Lau.

- Tá bom o preço, Vagnão. Vai por mim que é coisa boa.

- Se virá bom cliente, tem até Santa Luzia. Coisa de magnata. Tá ligado onde é a fita?

- Nos Jardins, sacola bacana essa. Quanto tá saindo?

- Levando essas do Extra, só posso te passar duas agora. Tem muita procura pelos bacanas. As dondoca pira nessa sacola. É dois real cada, da simples. Essas madames tremem pra vir aqui na quebrada, e quem vem buscar é tudo motorista, ou marido corno, tudo dirigindo Beême, Land Rover. Nóis vende pra todo mundo, tá ligado.

- Vou querer duas, por favor. Mais as trinta do Extra.

- Também vou querer duas do Santa Luzia, Nego Lau. – Pede Alberto.

- Peraí que a gente busca.

- Negueba, vai buscar a mercadoria. Faz um pacote pros chegado aqui, é primeira compra do branquelo.

- Pode deixar, chefe!

E entrou num beco, rapidamente, Negueba, deixando Nego Lau apenas com o Ratão de segurança.

- Beto, meu velho!! Animal a sacola da Santa Luzia! O Nego Lau é o cara! Vai ter churrasco no prédio de uns amigos, vou chegar com a cerveja numa dessa. A galera vai pagar um pau enorme! – O entusiasmado Vagner comenta com o amigo.

- Não te disse que o cara é sangue bom. Mas fica na quieto por enquanto, Vagner. Tráfico de sacolinha de supermercado é crime pesado, e não quero escutar lição de moral que eu financio o tráfico de sacolinha. – Alberto faz um alerta à Vagner

Três minutos depois, volta o Negueba com um pacote, entregando-o para o seu chefe.

- Aí rapaziada, tá aqui a mercadoria. Quando quiser mais, é só colar. – Nego Lau entrega as sacolas plásticas para a Alberto, que cumprimenta o traficante.

- Valeu Nego Lau. – Agradece Vagner.

- Fica suave, e qualquer treta, nunca vi vocês.


Boteco que se chama boteco não é boteco

08/05/2012

A primeira regra na vida de qualquer ser humano, na forma adulta, é entender que “Boteco que se chama Boteco não é boteco.”

Boteco é uma palavra tão grandiosa que, correto também está escrever buteco, com “u” mesmo. Porém, há cerca de uma década e meia começaram a elitizar uma das palavras mais populares da língua portuguesa, transformando-a em locais onde a nobreza quer ser espartana, onde colocam seus i-phones sobre a mesa de madeira da Bohemia, onde penduram na cadeira bolsas que custam ao menos quatro dígitos antes da vírgula e discutem sobre a diferença de preços do Brasil com relação aos outlets estadunidenses.

Botecos que se chamam botecos são obrigados a ter picanha no aquecedor francês, uma boa variedade de queijos alpinos e frutos do mar dourados, sem esquecer, obviamente, daquele chopp cremoso com metade do copo só de espuma custando a bagatela de 6 reais.

Botecos que se chamam botecos têm como objetivo fazer os mais abastados, aos sábados, comerem feijoada de 59 reais por pessoa no buffet, incluindo a farofa e a laranja dividindo o mesmo prato. É para aquelas moças bonitas cobertas por uma malha de lã de carneiros poliglotas do norte da Escócia tirarem a foto e publicar no Facebook, sob o seguinte título: “Nesse friozinho, delícia de Feijoada!”

Para ir em botecos que se chamam botecos, deve-se colocar àquela camisa pólo com vários bordados e um número gigante, e o homem que não usar a meia soquete escondida no sapatenis bege desbotado pagará um mico gigantesco, que não adianta nem ter coragem para conversar com a guria que enfiou a calça jeans para dentro da bota de montaria.  Ah, e jogue fora essa corrente prateada! Já passou a moda de penduricalhos gritantes, rapaz! É chique ser minimalistamente arrumado, benhê!

Quando te convidarem para ir no boteco que tem boteco no nome, prepare o bolso. Tanto que hoje faz parte inserir no convite aos botecos que se chamam botecos, informar que tem cerveja de garrafa, assim há botecos que se chamam boteco para quase todas as classes, à todos poderem beber sem peso na consciência de rasgar dinheiro.

E para o outono-inverno, convidar as amigas para uma sopinha no boteco que tem boteco no nome faz parte da programação. É obrigatório, afinal, suportar 15 graus positivos, um friozinho e tanto, para postar no Face, mostrando o cachecol mais peludo que o Garfield. São só vinte reais o manobrista, fora o trânsito nos arredores, mas com aquele aquecedor de botijão ao lado da mesinha de madeira, fica tudo muito charmoso, ideal para planejar a ida à Campos para um vinhozinho.

É preciso tirar do armário aquelas blusas de frio, oras!  São investidos centenas, milhares de reais para dois meses de friozinho. É necessário mostrar como ser fino no boteco que se chama boteco do Itaim Bibi ou Vila Madalena. Aliás, todo boteco que se chama boteco tem, no complemento do nome,  santos e santas. Se for o Boteco Santa Fulana, prepare pela facada no bolso!

Enquanto isso, no buteco que se chama Lanches Odair, Bar do Almir ou no Restaurante Vila Joaniza, eles não querem se chamar de buteco, mas sabe que são. As mesas de plástico, a parede repleta de Velho Barreiro e o cardápio de uma folha só, bem diferente daquele de couro do Boteco Santo Luxo, já demonstra tudo.

Buteco tem um piso qualquer, de preferência de cor escura, muito diferente do quadriculado Boteco Santa Requinte, o qual duvido que o garçom tira a bandeja de torresmo e pede para você escolher, ou que faça X-Salada ou X-Churrasco com Vinagrete. Buteco faz qualquer coisa das seis da manhã à meia-noite, e a feijoada custa R$14,90.

Marcio Vieira


É só um centavo

27/04/2012

- CPF na nota?

- Hoje não, é pouca coisa.

- 12,99. Dinheiro ou cartão?

- Dinheiro.

- Seu troco: dois reais.

- Faltou um centavo.

- Desculpe, não tenho. É um centavo só.

- Mas eu quero meu troco certo.

- Tome cinco centavos, então.

- Mas eu não tenho quatro centavos para te devolver.

- Não precisa.

- Você não tem nenhuma moeda de um centavo?

- Faz anos que não vejo uma dessa.

- E por que vocês pedem 99 centavos se nunca tem troco?

- Todo lugar cobra esses valores com final em 99.

- Mas ninguém recebe o troco exato.

- O Seu Joaquim tem no caixa ali da padaria em frente um monte de moeda de um centavo que foi guardando durante os anos. Ele troca uma dessas por moedas de cinco centavos. Ele ganha 500% em cima. Baita investimento.

- Mas é só um centavo.

- Então por que você está me cobrando?

- Porque é meu troco de direito.

- Mas é só um centavo, não é?

- É, mas agora eu quero os cinco que você ia me dar.

- Você me devolve quatro centavos?

- Não tenho.

- Concorda que eu serei mais prejudicado que você? Você só vai perder um e, eu, serão quatro centavos de prejuízo!

- Então porque você me ofereceu cinco centavos?

- Porque são apenas cinco centavos. E essa moeda eu consigo pedir no banco.

- E por que você não pede algumas moedas de um centavo?

- Porque acho que não existe, caramba!

- Acha, ou tem certeza que não existe?

- Não sei, nunca pedi.

- Então por que você cobra os produtos terminando com 99 centavos?

- Porque o preço fica mais bonitinho, chama a atenção do freguês.

- Mas você disse que não existe o um centavo.

- Também não existe essa fração que postos de gasolina cobram. O litro custa 2,699. Vai pedir para eles quebrarem em dez partes a moeda de um centavo.

- Mas você acabou de me dizer que não existe mais moeda de um centavo para eu dividir.

- Existe sim, o Seu Joaquim tem um monte, acabei de te falar.

- Mas não vou pagar cinco centavos por uma moeda de um centavo.

- É irrelevante um centavo.

- Concordo. Mas por que não matam de vez essa moeda?

- Ela já está morta, só não enterraram.

- Mas tem um monte de gente ganhando esses centavos de troco sem a população perceber.

- Brasileiro não dá valor para moedinhas.

- Então você vai arredondar o valor?

- Não.

- Por quê?

- Senão eu não consigo vender, é uma forma de enganar a mente humana, li numa reportagem um troço desse que falavam.

- E você quer me enganar?

- Não, te ofereci cinco centavos, caramba.

- Mas só porque eu pedi o meu troco. E se eu não pedisse o um centavo?

- Eu não te daria, oras.

- Então você me enganaria. Enriquecimento ilícito! Estelionato! Vou te dedar para o governo!

- É… mas você também engana o governo. Você não pediu o CPF na nota.

- Mas custou 12,99. Não compensa o tempo digitando CPF, é merreca que vou acumular, nunca soube de ninguém que ganhou esses prêmios que falam que existe.

- E não é merreca o um centavo de troco?

- É, mas é meu.

- E por que você não dá o seu CPF pra mim?

- Eu não, dizem que o fisco interliga as contas, e depois o leão vem atrás de você e crau.

- Mas é dinheiro seu, oras, que, aliás, você me “ajuda” quando não pede CPF na nota, assim meu contador consegue montar o balancete.

- Então você está me enganando de novo?

- Não. Perguntei se você queria o CPF na nota.

- Se eu não quiser a nota, você me dá esses quatro centavos da diferença.

- Pode ser

- Pode ou será?

- Será.

- Acertados?

- Mas estamos nos enganando, e enganando o Brasil. Não é correto pagar 12,95 por um produto de 12,99 para te deixar na informalidade.

- Ah, o Brasil nos engana com essa moeda de um centavo que não existe mais. E deixa ainda os postos de gasolina cobrarem 2,799 o litro, uma terceira casa dos centavos que não existe!

- Você já pediu no banco e foi recusado?

- É perda de tempo. Nunca pedi.

- E como sabe que não existe mais? O Seu Joaquim tem, oras.

- Mas ele é um português pão duro que guarda essa porcaria há anos.

- O muquirana fez 500%.

- Mas são só cinco centavos de lucro.

- Tem razão.

- Então você não quer mais os cinco centavos?

- Não, não mais, mas devolve o dinheiro porque vou pagar no cartão de débito, e quero CPF na nota.

- Ok.

- Vou querer também esta trufa aqui. Quanto custa?

- 1,99.


A maior invenção da humanidade

25/04/2012

Até ontem eu considerava o vaso sanitário como a maior invenção da humanidade. A privada é incrível, basta apertar um botão e, num passe de mágica, fazer sumir, literalmente, toda merda que acumulamos. Destaco também a invenção do elevador e do lacinho lateral que amarra a parte de baixo dos bikinis como as grandes invenções. Até ontem…

Até ontem, quando dez Davis enfrentaram onze Golias numa arena com cem mil pessoas na expectativa de ver o tão costumeiro massacre dos anfitriões. O cara que inventou o futebol é um grandíssimo filho da puta! (Em tempo: grandíssimo filho da puta é um elogio supremo, dado à poucos, no meu humilde e contraditório vocabulário)

Como pode o futebol permitir que os gigantes, do possível melhor time da história, amargar a derrota dentro de casa?  Como pode o Barcelona, o ápice do futebol arte, ser eliminado?  Que incrível é o futebol, que permite a injustiça, e muitos comemorar sua existência!!

O espetáculo ontem, não foi ver o futebol-pimball de toques rápidos e envolventes do esquadrão de Guardiola. O espetáculo foi ver que gigantes são, porque não, humanos. Ontem ficou comprovado, embora milhares ainda teimam, que Messi é terráqueo.

A arte sempre será arte. Não vi Hungria de Puskas sucumbir, não presenciei a Laranja Mecânica, e não vi o selecionado tupiniquim de Telê Santana, mas vi o time do Barcelona jogar. O palco é de todos, no futebol, dando espaço para injustiças serem justas.

Essa é a graça do esporte bretão de 150 anos. Essa é a paixão que justifica um pequeno clube paulistano chamado Juventus se vestir em cores da rival Torino. Essa é a paixão que permite ter um River Plate no nordeste, um Santos no México, um Corinthians no Brasil.

Futebol deveria ser uma palavra feminina, pois tanta beleza, tanta paixão, provocação, amor, raiva, choros, sorrisos, só grandes mulheres inflam tais sentimentos no coração dos homens, pobres e cegos apaixonados seres limitados. É por isso que muitas mulheres (as pequenas) insistem em rivalizar com o futebol, em crises de ciúme por ter a atenção dividida por causa de uma bola.

Injustificável sentimento de uma paixão não correspondida. O futebol é sacana, engana e, quando acha que a previsibilidade atuará, que o Barcelona goleará, vem os Deuses da bola e mudam o curso da história.

Até ateus acreditam na divindade futebolística. Foram eles que desviaram o chute do melhor do mundo no pênalti perdido! Malditos que não permitem a eternidade da arte!

Mas como toda arte, o futebol também é subjetivo, de interpretações múltiplas, e a arte de ontem foi um time sem zagueiros (um expulso e outro machucado, logo no início do jogo) eliminar o time das goleadas e da beleza plástica. Se Michelangelo fez arte a partir de uma não bela Gioconda, o Chelsea pode construir uma obra prima, não bela, na terra de Gaudí. O mundo não é feito apenas de Gisele Bündchen. Pelo contrário. Ainda bem!

O Anti-jogo é arte, Arte da Guerra que Sun Tzu explicou. Cada um luta com as armas que possui. Encenar é arte, e Drogba pode fingir suas dores num grande palco. É o máximo que alguns Davis poderiam fazer, pois se lutassem de igual para igual, o time londrino seria engolido pelo Barcelona.

Cruel, o futebol, que permite gols em contra-ataques. Apaixonante futebol, que encobre a razão e a superioridade num toque sutil de Ramires. Futebol que alimenta as minorias, os pequenos Davis, na esperança do impossível, do imprevisível e do injusto, acontecer. E às vezes ele acontece, e a graça está nisso: se a injustiça for frequente, o futebol deixará de existir.

É por isso que existirão dias de Paysandú no La Bombonera, de Chelsea no Camp Nou ou do Uruguai no Maracanã.

Há dias que eu odeio amar o futebol, e outros dias que amo odiar o futebol. Mais raros são os dias, como ontem, em que amo amar o futebol, a maior invenção da humanidade.


Malditos kebabs!

23/04/2012

Ódio aos imigrantes

Irônica (e preconceituosa) sociedade, que batiza extremistas de turbante de terroristas e, ao mesmo tempo, outras pessoas, muitas de cabelos dourados, são denominadas, simplesmente, extremistas.

O branquelo de olho azul vai passar por exame psiquiátrico, afinal, não pode ser são o Sr. Breivik, culto, poliglota, que planeja, e mata, 77 pessoas. Porém, é terrorista um Mohamed qualquer, que não pode andar de mochila pela Europa sem ser revistado por policiais assustados, despreparados, pois toda a Europa vai pensar que tem uma bomba pronta para explodir.

E, se realmente tiver uma bomba, polícia nenhuma vai impedir dele se matar e levar algumas dezenas junto. Enquanto o muçulmano enrolado em panos transparece seu ódio ao querer defender sua própria religião, que é historicamente alvo de ataques preconceituosos, o bonitinho norueguês pode comprar armas pesadas sem a desconfiança da sociedade, afinal, no máximo, ele é um louco.  Terrorista é o barbudo de cara fechada.

Campanha do partido nacionalista Suíço, que quer expulsar as ovelhas negras (imigrantes) do país

Só que o nórdico extremista fez o que muitos, hoje milhões de europeus, pensam em fazer:  não a matança sanguinária, mas sim o controle da imigração. Basta ver os 18% de votos que a extrema direita recebeu nas eleições francesas no último domingo. É muita gente que não quer dividir espaço com negros, árabes e latinos. A minoria, em crise e época de sobrevivência, vira o alvo de ataques e campanhas políticas.

Mas em domingo de eleição, com cédula na mão, sai dali o que a Europa está pensando em anos de crise e desemprego. Concorrer com imigrantes na seleção de um emprego, só porque o desgraçado brasileiro ou argelino conseguiu um passaporte comunitário deve doer no orgulho do povo dominante, e como ninguém vai ver em quem se vota, Hitlers contemporâneos viram notícia.

A extrema Direita cresce

No entanto, ninguém assume. Quantos de vocês conhecem quem votou no Maluf e assumiu isso? É a mesma coisa na Europa: ninguém assume porque o voto é secreto, mas ontem, na França, mais de cinco milhões de pessoas votaram na Le Pen.

A extrema direita cresce, e assusta quase que proporcionalmente ao crescimento das taxas de desemprego.  Ultrapassada, não se produz mais na Europa porque o custo do trabalhador é altíssimo, então indústrias foram para China produzir.

O grande erro do europeu é achar que a cadeia econômica baseada na prestação de serviços, principalmente o turismo, sustentaria toda a economia. Espanha foi para o brejo por achar que ficou rica de uma hora para outra, sem ter uma cadeia industrial competitiva e abrangente.

Mas calma, Europa, ainda não é o fim do poço que justifique votos em desespero e ódio. Quando o mundo voar em avião Made in China sem medo, aí vocês estarão lascados. Por enquanto são computadores e outros eletrônicos, mas cabe lembrar que há menos de duas décadas era apenas àquelas calculadoras bizarras.

Encontro de terroristas?

E vocês da direita nacionalista europeia querendo apontar o dedo para o barbudo que clama por Alá, ou para o latino que esquenta a barriga no fogão sem reclamar?  Esperava mais inteligência, pois. O Alemão pagou uma multa chamada Hitler, e hoje tem uma indústria diversificada que atingiram a excelência na produção de bens de consumo. É a forma de proteger empregos na globalização, de lacunas em leis trabalhistas, salários mínimos injustos e concorrência desleal (subentenda China): qualificar a cadeia industrial e produzir com alta qualidade protege emprego, protege o país e protege economia, não dando margem para crises que desencadeiam teorias preconceituosas.

Pensa num carro bom, numa ferramenta boa, ou num remédio bom. Quando o mundo comprar na farmácia um remédio chinês, só aí a Alemanha vai quebrar. Mas isso não vai acontecer quando um país se renova e cria novas tecnologias e soluções.

Merkel aprendeu a conviver com Kebab

Não são os imigrantes que roubaram empregos na França. Foi o Japão, depois Coreia do Sul e, agora, a China, que se qualificaram para entregar um produto de melhor qualidade, feito há milhares de quilômetros de distância, por um preço competitivo.

A dinastria Le Pen quer tirar o kebab das ruas para proteger a baguete com queijo brie, assim como Hitler, que não perdoava e não comia guildene. Mas como o ódio se adapta facilmente, se estivesse vivo, Hitler também não comeria kebab e também exterminaria gays, africanos, latinos, tudo que for miscigenação que atrapalhasse seus planos nacionalistas.  Malditos Kebabs!

18% dos franceses se incomodam com imigrantes de pele mais escurecida. Assustador, o número. É muita gente querendo expulsar as minorias étnicas e religiosas, ao invés de, simplesmente, modernizar pensamentos e conviver com a mistura, encontrando inclusive oportunidades de negócio. Do contrário, novas guerras, não serão surpresa.

Malditos Kebabs!


A ganância contra o povo

19/04/2012

Corinthians é o time que mais arrecada em jogos. Embora sua média de público não esteja muito acima dos rivais, o que destaca é o valor do ingresso que é o mais caro do Brasil.

Arrecadar 1.6 milhão de reais, como no último jogo, é um rendimento considerável que ajuda os cofres do alvinegro. No entanto, há de se destacar alguns pontos deficitários que, em três jogos de Copa Libertadores no Pacaembu, não foi resolvida: a taxa de ocupação.

No jogo contra o Deportivo Táchira, da Venezuela, o público total foi de 29 mil espectadores, num estádio que abriga quarenta mil torcedores. Ou seja, foram 72% de ocupação, muito aquém dos números de times medianos do futebol europeu, o que dirá dos gigantes do velho continente.

O principal fator de mais de dez mil lugares vazios no estádio é o custo do ingresso. Quase que a totalidade desses ingressos está nos setores das cadeiras, em que o Corinthians cobra valores astronômicos. Assim, o Corinthians deixa de arrecadar CENTENAS de milhões de reais por… ganância.

Ganância?!? Sim. Incompetência e falta de inteligência são perfeitamente somáveis à ganância dos administradores do clube.

O Corinthians não encontrou ainda a curva de consumo do seu torcedor em todas as áreas: não sabe cobrar o valor pelo uniforme que dê um lucro sustentável, assim como não sabe cobrar pelo ingresso, que deixa o estádio cada dia mais vazio. O aumento abusivo no preço dos ingressos afasta a grande maioria, deixando o evento elitizado. Uma completa contradição, quando se trata do “time do povo”.

Povo rico, esse, que não aparece no estádio. São pessoas que preferem o conforto da poltrona e o pay-per-view, que não tem o costume de ir ao Pacaembu, deixar carro longe sob a guarda de um flanelinha que cobra quinze reais, que não se dispõe a andar um quilômetro até o estádio desviando de barraquinhas de sanduíches de pernil, espetinhos de churrasco ou vendedores de cerveja.

Todo clube tem sua torcida de almofadinhas, e o Corinthians, contrariando a imensa maioria dos brasileiros que acha que é o clube dos desdentados e favelados, é o time que mais tem torcedores, proporcionalmente, às classes A e B em todo o Brasil.

Porém, àqueles que costumavam sentar na cadeira coberta do Pacaembu não estão mais lá: ou hoje vão para o bar assistir pela TV, ou mudaram de setor do estádio e foram para as cadeiras descobertas (Setor Laranja). Em efeito dominó, os que assistiam na Laranja mudaram de área também porque não aguentam pagar o preço atual, assim superlotaram a sempre lotada arquibancada, o “setor popular”.

Setor popular este que cobra 35 reais por jogo, e que não tem nada de popular no perfil dos ocupantes. Se fizerem uma pesquisa em frente ao portão principal do Pacaembu, aposto que mais de 50% já têm ou está cursando ensino superior. Aposto ainda que pelo menos dois terços da ocupação da arquibancada tem torcedores com rendimentos mensais acima dos mil reais mensais.

Esqueceram que aqui é o Brasil. E clubes como o Corinthians aproveitam a paixão e fidelidade de milhares de torcedores para que tais comprometam sensivelmente a renda familiar, direcionando o valor para ver o time no estádio.

Não apenas o desrespeito à massa corintiana, há ainda uma falta de inteligência tremenda da diretoria do Corinthians não otimizar o potencial que o Estádio do Pacaembu tem em fazer dele um verdadeiro inferno para os adversários, com uma multidão enlouquecida gritando o nome Corinthians.

Foram, no jogo de ontem, 28% a menos de vozes, de gritos, de impulso que dá energia ao Corinthians. Foram pelo menos quinhentos mil reais a menos de arrecadação ao clube.  E o que a diretoria faz para mudar?  Nada!

Tive a oportunidade, ano passado, de assistir um jogo na tribuna. Sabe aquelas cadeiras pretas separando da amarela? Então, para quem não sabe, a tribuna é onde, praticamente, ninguém compra ingresso.

São ex-jogadores, familiares de jogadores, filhos de diretores ou outros componentes da direção, empregados, etc. São pessoas que pegam seus ingressos no Parque São Jorge, gratuitamente, e vão para o estádio, entram num portão com um segurança de terno e gravata, e, no intervalo do jogo, vão para os comes e bebes naquele salão que é um viaduto de quem vê pela rua.  Tudo de graça, salvo raríssimas (e põe raríssimas mesmo) exceções que pagam os 300, 400 reais de ingresso para ter esse tipo de serviço.

E o mais absurdo do jogo de ontem é a falta de comunicação com a direção da equipe adversária. Já eliminado, o Deportivo Táchira não tinha expectativa positiva nenhuma no jogo, assim, não foram nem uma dúzia para apoiar o time venezuelano.

Ora, Direção do Corinthians, vocês não poderiam entrar em contato com o adversário, e oferecer aos tais torcedores as cadeiras pretas e os quitutes, cafezinho e sanduíche de metro, como anfitriões do espetáculo?

Pior que isso foi o pensamento engessado da Policia Militar em fazer aquele cordão de isolamento bizarro no Tobogã, diminuindo a capacidade deste setor, sendo que seria impossível qualquer tipo de ataque de sacolas cheias de urina. Enfiam mais uns trezentos corintianos naquele canto baixo do Tobogã para gritar pelo clube, que será de grande ajuda.

Resolvendo a questão dos doze torcedores do visitante, liberaria quase cinco mil lugares, àqueles destinados aos visitantes, para a torcida do Corinthians lotar um setor que poderia ter o mesmo preço da arquibancada, já que ambos os setores tem como conforto o cimento duro.

Ora, por 35 reais (preço aproximado do Fiel Torcedor), multiplicado por cinco mil, somariam R$ 175.000,00 à renda. Porém, mais que o valor no caixa do clube, seriam outras cinco mil vozes no jogo, que fazem diferença.

O Corinthians tem a obrigação de colocar pelo menos 90% da carga máxima de torcedores no estádio para jogos da Libertadores. E não é culpa da torcida não lotar o estádio, e sim é a ganância e mesquinharia da direção do clube, achando que o Pacaembu tem estrutura que valem a cobrança de ingressos acima dos cem reais. Ora, o Corinthians tem torcedores ricos, muito ricos, só que a maioria deles não vai se enfiar num estádio que não tem estacionamento, que não dá dignidade ao torcedor.

Daqui a pouco, o cachorro morde o próprio rabo. Basta ver a média fraquíssima de torcedores do time nos jogos do campeonato estadual. A torcida não tem condições de pagar esse absurdo de ingresso, sendo que há todo um ritual dos torcedores: são cervejas (3 reais por lata), são churrasquinhos, sanduíches de porta de estádio, ônibus, etc., que encarecem o custo de ir para o jogo. É praticamente impossível, somando os valores, um torcedor gastar menos de cinquenta reais num jogo.

Multiplique isso por, na média, seis jogos por mês.  São trezentos reais para os torcedores de arquibancada ficar no sol e na chuva pelo time. Hoje, embora cante com a mesma força e vibre com a mesma energia, quem está lá não é o povo histórico que carrega esse time há um século. Hoje é a classe média (da média baixa à média alta) que ocupa esses lugares, deixando socioeconomicamente povo em casa.

A gestão do clube é deficitária e a cada dia que passa se distancia dos torcedores. São camisas custando 199 reais, algo que estimula a pirataria, que encontra um campo vasto para vender as “réplicas” por 20, 30 reais. Se a camisa original, no lançamento, custasse 80, 90 reais, será que os produtos piratas sobreviveriam? Aposto que não sobreviveriam porque haveria um esforço do torcedor em pagar, duas ou três vezes mais, pelo produto original. Mas hoje, a diferença chega a dez vezes mais caro, distanciando o torcedor do clube.

O mesmo se trata com ingressos. Se há dez mil lugares vazios, que vendam esses ingressos horas antes do jogo por dez reais. É um investimento importante e necessário, que fortalece muito os jogadores. Competente seriam se colocassem ingresso por preços mais justos, lotando o estádio em respeito ao próprio Corinthians.

Cobrar mais de cem reais num ingresso é um absurdo, em se tratando de Corinthians. Soma-se tal exploração aos quinze reais do flanelinha, os vinte reais das cervejas, o sanduíche, etc., impossibilitando para a maioria dos Brasileiros.

A diretoria do Corinthians está silenciando o principal jogador que o time teve, e sempre vai ter: a sua torcida.

Grandes marketeiros da República Popular do Corinthians… Aonde é Popular, mesmo?


O Dia Mad Max

07/03/2012

Busquei a sinopse do filme: “Em um futuro não muito distante (o filme começa com a frase: a few years from now) e pós apocalíptico, o deserto australiano vive dias de caos onde gangues de disputam o poder e aterrorizam a população por um pouco de gasolina”.

Impossível não associar o dia de hoje com o filme feito em 1979, estrelado por Mel Gibson.

O Dia de Mad Max mostra o desespero paulistano por alguns litros de gasolina. O caos se formou, sete milhões de veículos lutam para chegar em seus trabalhos salvos.

A gangue caminhoneira aterroriza a principal capital brasileira. Postos inflacionam o preço, se aproveitam do medo formado pela busca pelo deslocamento.

A gangue caminhoneira aproveita a falta de consciência coletiva do paulistano, que não aceita dividir um ônibus, dividir uma carona, pedalar, caminhar, enfim, buscar alternativas para melhorar o convívio na cidade.

Cidadãos comprometidos com o trabalho que pagam 300 reais por mês de estacionamento, ou que pagam 15 reais a primeira hora (ou ainda mais) para colocar seus carros num lugar “protegido”.

Cidadãos que perdem 20% do valor do automóvel no primeiro ano de uso, que gastam 300 reais para andar mil quilômetros (fora os gastos de manutenção) que gastam entre 3 e 10% do valor do carro por ano em seguro, ou seja, depreciam em uns 25% seu “patrimônio de rodas de liga-leve”.

Contribuintes que pagam regularmente seus impostos, que gastam meia hora para achar uma vaga para estacionar o carro na rua, pois hoje as prefeituras esqueceram que a prioridade da rua é o fluxo contínuo, e não a possibilidade de estacionar, prejudicando o trânsito.

Habitantes que reclamam da ciclofaixa permanente, que tirou a possibilidade de estacionar suas latas de insul-film, ou que não respeitam a placa “Rota de Ciclista”

Caminhoneiros, os malvados, são a corja da sociedade proletária. Afundam São Paulo no caos! Se organizam em sindicatos com barbudos e cruzam os braços. Abusados, vocês!

São Paulo é cidade para andar de carro!  Ônibus é coisa de pobre, preto, ou, pior ainda, pobre preto. Eu ganho meus dez mil reais por mês e vou financiar meu i30. Eu ganho 5 mil reais por mês e pago meu Fox. Eu ganho 3 mil e pago meu Uninho. Eu ganho mil reais por mês e pago as prestações do meu Gol Caixinha!!

E, mais que isso, eu vou andar SOZINHO!  O carro é meu!  Eu faço o que quiser! Eu buzino! Deixe as sardinhas enlatadas no transporte coletivo!  Não vou dar carona para o vizinho, eu não converso com ele, então ele não é bem-vindo no meu possante.

Esses ciclistas idiotas não aprendem que bicicleta é só no Domingo, e apenas para andar aonde tem cone.  Meu carro não divide espaço com uma bicicleta. Eu fecho! Deixo apenas a linha da sarjeta para eles! Meu carro de 50 mil reais com DVD é mais importante que a bicicleta do eco-chato.

Carros de 100 mil reais pra cima, então, são deuses supremos! Não se misturam com a gentalha, diz Dona Florinda a bordo do seu Land Rover.

Vamos, Mad Max, sobreviver pelo líquido sagrado: a Gasolina!

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Brincadeiras à parte, não desejando o sofrimento de ninguém, mas é importante tomar ciência de algumas coisas:

Corredores de ônibus tem fluxo de 30 mil pessoas por hora, enquanto cada faixa para carros tem, em média, fluxo de 2 mil por hora. Se pensar que mais de 80% dos carros em SP estão com APENAS 1 pessoa, calcula-se menos de 2.500 pessoas por hora em cada faixa de rolagem para carros.

Numa avenida com duas faixas para carros e apenas uma para ônibus (exemplos: Avs. Santo Amaro, Nove de Julho, Rebouças, Ibirapuera…), deslocam-se 35 mil pessoas por hora.

Por que não dobrar a faixa de ônibus, deixando apenas uma para carros? Assim seriam 60 mil pessoas por hora, diminuindo o tempo parado no trânsito. Metrô tem fluxo de quase 40 mil pessoas por hora.

Mas ocorre que o morador de Moema não vai entrar no ônibus para ir para a Faria Lima, muito menos gastar 15 minutos e ir de bicicleta.

Prédios comerciais acham mais lucrativo ter TRÊS vagas a mais de carro do que montar, no mesmo espaço, um vestiários e colocar ganchos para pendurar bicicleta.

Homens de negócio não pedalam. Multinacionais têm que fornecer CARRO para seus líderes em sinônimo de status e importância dentro da empresa.

Vamos, sociedade brasileira, estimular que quanto maior e mais caro seu carro, maior é sua influência na sociedade! Se a empresa me deu um Corolla, é porque eu sou fodinha. Se a empresa me der um BMW, eu serei fodão!

Vamos, paulistas, mostrar que carro é sinônimo de poder. Vamos financiar, pagar 30% de juros ao ano para preencher uma das vagas do seu prédio com varanda gourmet.

Vamos, pauliceia, a gasolina é o sangue que bombeia para encher nosso ego. Gasolina Podium é a Absolut das vodkas, deixem a vodka Balalaika para o dono do paliozinho.

Vamos, sociedade motorizada, promover o caos. Com felicidade vamos promover trânsito na saída da garagem dos nossos condomínios-clube. Vamos para a padaria de carro!  Vamos para a academia de carro!

Vamos esperar construir o metrô para enfim deixar o carro na garagem. Vamos esperar o ônibus ficar menos lotado para enfim eu ter meu bilhete único.

Brasileiro é um bicho estranho: fora do país dá uma de “Povo” e anda de bicicleta em Amsterdam, de metrô em Nova York e de ônibus em Londres, mas quando volta, dá uma de “Gente Diferenciada”

O fluxo de investimento está completamente invertido. É preciso criar a demanda, primeiro, para existir o investimento público. Governo nenhum, no mundo, antecipa, faz projeções sócio-administrativas. Vocês acham que Paris sempre foi bonitinha?

É preciso acabar com corrupção. É preciso acabar com burocracia que atravanca o desenvolvimento. É preciso diminuir os gastos públicos com funcionários fantasmas, ou com gabinetes populosos de políticos ineficientes.

É preciso diminuir o número de deputados e vereadores. Mais de 500 neguinhos eleitos em Brasília que não resolvem porra nenhuma. É preciso fazer essa cambada ter cartão de ponto e ganhar por hora trabalhada, desempenho, cortar auxílios bizarros que afrontam a inteligência do eleitorado. É preciso um monte de coisa que só o voto não resolve. É preciso promover um certo caos para revindicar melhorias.

E o caos do Dia de Mad Max é um dia para refletir: o que VOCÊ, contribuinte, cidadão, faz para melhorar o convívio na sua cidade?

O que VOCÊ pode mudar em SEUS hábitos para ter maior qualidade de vida?

Será mesmo, esse desespero todo por combustível, uma necessidade?

Precisamos SURTAR para ter gasolina?

Precisamos de 7 milhões de veículos apenas na cidade de São Paulo?

Precisamos ter mais de um carro dentro da família?

Precisamos ir num carro vazio para o trabalho?

Precisamos inflacionar os preços de estacionamentos?

Precisamos gerar 5 BILHÕES de dólares de lucro em 2011 para as montadoras no Brasil enviarem para suas matrizes espalhadas pelo mundo?

Precisamos dessa vida estressada por causa de individualismo?

Precisamos resolver um problema coletivo resolvendo, com a compra de um carro (ou até segundo carro para rodízio), pensando numa solução individualizada?

Precisamos nos matar no trânsito, xingar, reclamar, buzinar tanto? Seu carro também contribui para o trânsito existir! PENSE!

Precisamos chegar ao ponto de viver como Mad Max?

Marcio Vieira


Canibais do Tempo

02/03/2012

Ilha de Páscoa é conhecida pelos enigmáticos Moais espalhados pela ilha, conhecida também por ser um dos pontos mais isolados do planeta, metade do caminho da América do Sul para a polinésia.

Menos conhecido pela maioria é o motivo da decadência da sociedade de Rapa Nui, tão inteligente para construir centenas de esculturas (imensa maioria, diga-se de passagem, destruída pelos espanhóis), mas que ao mesmo tempo sucumbiu dentro de si.

A ilhota chilena é exemplo corriqueiro para a “Turma da Sustentabilidade” em palestras, apresentações ou papo de bar. Um povo tão avançado foi destruído, principalmente, por eles mesmos, quando começaram a notar que a falta de comida acontecia porque não havia planejamento, sem respeitar agricultura ou pesca consciente.

Surgiram, então, os primeiros conflitos. Pequenas guerras na pequena ilha para comer o pouco de alimento que tinha até que chegou ao limite da sobrevivência: viraram canibais.  Canibalismo matou uma das mais místicas sociedades da história, de inteligência ímpar, ambição idem, esta que, infelizmente, se transformou em ganância, e aí a coisa degringolou.

Algumas dezenas de séculos depois, numa grande cidade que se orgulha em estufar o peito, com certa arrogância, de ser a “locomotiva do Brasil”, sem perceber que são canibais contemporâneos.

Paulistas, imigrantes e retirantes se juntam para lutar pela sobrevivência. O monstro, antes domesticado, tomou conta da cidade. Um monstro invisível que não cansa, não descansa. Um monstro chamado Tempo.

Tempo que hoje faz paulistas saírem 5 da manhã de carro para conseguir uma vaga e dormir no carro até às 8h. Tempo que faz outros paulistas entrarem no trabalho às 10h e sair às 20 para fugir do trânsito. Tempo que criou novas categorias de trabalho, como Motoboys, que existem, que se arriscam, por entregas em menos… Tempo.

Paulistas loucos, ignorantes, que não aceitam diminuir seu consumo besta, desnecessário e doentio. Paulistas ricos e arrogantes que planejam a agenda da semana pela placa do próprio carro, isso quando não compram o “carro do rodízio”.

Paulistas, tão inteligentes para formar uma das cidades mais ricas do mundo, mas tão burros que não percebem que estão se matando. A ganância da Ilha de Páscoa e de São Paulo é a mesma, são cachorros cegos e famintos que não perceberam que estão mordendo o próprio rabo.

Um canibal motorista na Avenida mais importante do país matou uma ciclista, mais uma, e não será a última. Canibais que se matam no trânsito com latas velozes, caras, sinônimos de poder e status. Canibais que se matam porque se acham no direito de reclamar do trânsito, mas não percebem que mais de 85% dos carros na cidade, que andam com APENAS 1 ocupante, e que são os responsáveis pelo trânsito.

Trânsito doentio que suga energia, que faz milhões de paulistas reclamarem, que faz milhões de paulistas perguntarem a razão de continuar vivendo assim, que faz milhões de paulistas sonharem com a vida na praia ou no campo, mas que não tiram a mão do volante nem para ir na padaria.

Paulistas com bundas flácidas sentadas em carros que vão, incoerentemente, de carro, para a academia malhar e ficar de bunda dura, e cérebro oco.

Paulistas doentes que criam seu futuro (seus filhos) com os mesmos medos, dando celular para um guri de 5 anos, ou deixar ele trancado em casa jogando PlayStation, enquanto os velhos engravatados se fecham dentro de carros solitários.

Paulistas medrosos e orgulhosos. Simultaneamente são assassinos e vítimas. Matam quem quer viver. Matam quem quer usar uma bicicleta como veículo, matam porque a “sociedade burguesa antiquada” exige uma merda de terno e gravata para te respeitar, atrapalhando você ir de bicicleta numa cidade que faz 34 graus.

Quem quer ser diferente, se fode. Morre. Prédios comerciais lotados de vagas para seus engravatados, enquanto não tem um mísero vestiário para o ciclista poder tomar um banho e se trocar. Paulistas que se matam quando o motoboy ganha 5 reais por entrega durante o dia e trabalha a noite, por gorjeta, entregando pizza.

O Tempo mata o paulista, e não adianta vir reclamar do governo, com o Papa ou com a puta que pariu. Quem criou a falta de tempo foi o próprio paulista.

Quem criou o monstro chamado Tempo, foram nós, os Paulistas. E o monstro Tempo já procriou e tem filhos: Stress, Caos, Medo, Doença, Raiva…

Mas não se preocupe, Paulista, domingo você ficará mofando no sofá e esquecerá da semana que passou. Na segunda-feira, você relembrará. É questão de tempo.

Marcio Vieira


Ok, vamos combinar!

27/12/2011

Todo natal é a mesma coisa de forma diferente. Família de sangue reunida por uma noite e um almoço, esquecendo, por tais horas, a família por opção, daquelas pessoas que conhecemos e escolhemos durante a vida.

E família é tudo igual, só muda o endereço, dizem os saudosistas. E com razão, sempre tem aquela tia dondoca casada com o tio boêmio, e são nesses momentos de família reunida que entendemos o motivo conjugal para o tio beber.

Sempre tem aquele primo “pegador” das baladas perdidas, que conta vantagem de tudo que faz, quantas mulheres pegou na última semana, enfim, o verdadeiro (pelo menos para ele) artilheiro do amor.

Opiniões acerca do novo namoradinho da prima, que a família não percebeu ainda que ela já saiu dos dezoito, vão existir só para deixar a coitada da menina envergonhada diante da parentada que pouco vê durante o ano.

Tem sempre as fofocas, os mal-me-disse entre os familiares, sempre querendo apontar o dedo para quem acham que está na merda, só porque resolveu escolher propósitos de vida diferente.

Essa disputa pelo poder, pelos louros de ter o filho mais bem sucedido, ou de chegar de carro novo sem tirar os plásticos nos bancos só pra mostrar a novidade para aquele seu primo. Essas picuinhas no 25 do doze enchem o saco, não só do São Nicolau.

Mas até aí entende-se, pois dentro da família de sangue todos querem dar seus pitacos na vida do outro. Acham-se no direito disso, sem conhecer de fato o que se passa do outro lado, ainda mais dentro daquelas famílias que se reúnem geralmente naquela quantidade de pessoas, no máximo, três vezes ao ano (páscoa, natal e mais alguma outra)

Mas há o lado positivo dessa reunião: e se chama vó. Esta é a personagem principal de qualquer natal. É ela que faz questão e cozinhar, de fazer o pudim de sobremesa, de ver a algazarra dos netos e bisnetos.

O natal é feito para as avós e avôs. Esquecemos o resto da família, esquecemos rusgas e briguinhas infantis entre os pertencentes do clã. O natal gira em torno do que os mais velhos desejam, que querem ver todos ali, e há de se respeitar isso. Ainda mais que nunca se sabe se aquele será o último natal que eles passarão conosco.

E o bordão natalino mais comum de se falar não é a piadinha tosca do pavê: o mais repetitivo é o tal “vamos combinar” que um diz para o outro durante esse encontro no final do ano.

Vamos combinar um almoço que nunca é marcado porque sempre a vida é uma correria.  Vamos combinar uma viagem que nunca é agendada porque o chefe não vai liberar. Vamos combinar de tomar um chopp na Vila Madalena. Vamos combinar de ir ao estádio, somos Corinthianos, maloqueiros e sofredores!

Vamos combinar de se ver mais no próximo ano. E isso nunca é feito. As mesmas promessas de organizar melhor a vida são ditas, e quase sempre, nunca cumpridas.

“Vamos combinar” é uma forma de dividir a responsabilidade com o outro que a família sanguínea está cada dia mais distante.  “Vamos combinar” serve para falar que a culpa não é só minha de ver seu familiar apenas em eventos que não enchem os dedos de uma única mão.

“Vamos combinar” é deixar no vazio, em aberto, um dia o qual farei algo pela família. Ao invés do “vamos combinar”, por que não se aproveita o evento natalino e já agendem um dia para fazer tal coisa?  Troquem o vamos combinar por está combinado!

“Vamos combinar” é torturante, às vezes falso, é também desgastante, porém, depois de tantos vamos combinar que foram escutados e ditos na vida, já se cria uma expectativa que aquilo não vai ser cumprido, só estão falando por falar, jogando palavras ao vento, talvez pela falta de assunto ou falta de familiaridade com a própria família.

Enquanto isso, a família por escolha, àquela dos seus amigos que dividem a mesa de bar com certa frequência, dividem o sofá de casa jogando xbox enquanto as respectivas ficam na cozinha fofocando, àqueles que te ligam para assistir o jogo lá no bar ou se auto-convidar telefonando  “estou chegando com uma caixinha de cerveja, quer mais alguma coisa?”, àqueles que falam “vamos num carro só, estou passando aí em 15 minutos”, a família dos amigos que por três ou quatro eventos no ano são esquecidas no natal, apenas recebem um torpedo coletivo ou, no máximo, um telefonema de 4 minutos.

Mas, por serem tão amigos, os amigos relevam, não se apequenam por serem preteridos porque sabem que o mesmo está acontecendo na casa da tia fofoqueira, aonde você está acontecendo as festividades deste ano, agendada há exatos 365 dias.

Porém, mesmo não estando com amigos que te conhecem mais que a própria família, há de se pescar coisas engraçadas e positivas durante o natal. A cara do sobrinho contando dos presentes deixados pelo Papai Noel, a cara de “que bosta” daquele primo que ganhou um jogo de Lenços Presidente da tia-avó, a cara de tanto faz do tio boêmio que ganhou mais um par de meias bege, a roupa brega da tia, etc.

É importante acabar com essa papagaiada socialmente correta dos tradicionais dizeres do vamos combinar, e só depois disso que  vamos combinar, efetivamente, que vamos excluir esse vamos combinar natalino das nossas promessas.

E depois disso tudo, ao encontrar um amigo no elevador: “Hey, topa uma cervejinha no final de semana?”

Vamos combinar!


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